segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

AOS REVOLUCIONÁRIOS DE CADEIRA


"por 'complexo de vira-lata' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo" 

Nelson Rodrigues

Brasileiro adora falar que o Brasil não presta, disse uma vez Caetano Veloso. Nelson Rodrigues usou o termo “complexo de vira-lata” pra definir aquele sentimento nojento de “tudo o que é de fora é melhor”.  Não nego que há até certo motivo compreensível nisso, nosso país é assolado pela corrupção desde a chegada das embarcações portuguesas; nosso código de leis não funciona e quem tem poder faz aqui dentro o que bem entende. Mas o curioso é que o desejo da difamação de si próprio é tão grande que até mesmo o que não é nosso, mas do mundo, há gente que batiza como “coisa de brasileiro” com o único intuito de criticar, como o carnaval e o futebol. Paciência. A questão a ser abordada aqui não é a cultura de forma geral, mas a mesquinhez de quem ergue a voz sem erguer a bunda, de quem protesta com cliques no mouse, de quem aponta o problema, mas esquece de apontar a solução quando liga o vídeo-game ou a Tv na hora da novela.

A revista americana Time elegeu como personalidade de 2011 “O Manifestante”. Não discordo, foi um dos anos mais quentes da História e, como essa mesma já provou, rebeliões acontecem apenas quando a situação fica pra lá de crítica. Enquanto não chega no limite, a gente vai levando, como diz a música, e acho que este é o nosso problema. Enquanto ditadores caíram e multidões acamparam em praças batendo o pé contra sanções governamentais, nós continuamos levando e dando xilique nas redes socias para que ninguém diga que nada está sendo feito. E vamos levando até que o peso suporte que seja carregado, até que um descuido vindo de cima deixe cair uma pedra a mais e tudo se torne intolerável. Pode acontecer amanhã, ou no milésimo aniversário da chegada de Nina, Pinta e Santa Maria.

Mas não é isso propriamente o que me revolta nisso tudo. O que me tira do sério é a quantidade de revolucionários de cadeira que a nossa geração pobre e mesquinha criou. Curiosamente, os mesmos que sofrem do complexo de vira-lata. Parece que a facilidade da informação foi confundida com a comodidade de incomodar – digo, de tentar incomodar. Recebo por dia uma quantidade enorme de imagens de photoshop para dizer que no Brasil se paga mais imposto do que em qualquer outro país do mundo, que o parlamentar brasileiro é o mais caro do planeta, que brasileiro é palhaço porque assiste futebol enquanto é roubado; mas na última manifestação que houve na Avenida Paulista pedindo o fim do foro privilegiado, o fim do voto secreto e o fim da impunidade, dava pena de ver meia dúzia de pessoas que perdiam as gargantas para competir com o som ambiente. Enquanto isso despenca no twitter as mensagens revoltadas de quem sequer abre o jornal, ou pelo menos o Google Notícias, que não custa dinheiro. Nossos pensadores estão aprendendo a pensar sem a ajuda dos livros, diretamente de fontes alternativas como charges, sites de humor e ouvido.

Será que efetivamente é o Brasil que não presta? Um nome não faz um país. Há quem reclame do calor do meio dia e do frio das nova da noite, mas não tira a blusa ao meio dia, nem fecha a gola às nove. Temos uma excelente cultura, mas pouca gente para apreciá-la, temos muitos para falar mal (e falar o que não sabe) e poucos para analisar um problema; temos uma nação para “curtir” palavras de ordem, mas uma pequena cidade para agitá-las pelas ruas. Enquanto isso travamos as páginas dos sites de relacionamento. Minha pergunta aos revolucionários de cadeira é: Será que estamos fazendo do jeito certo?

Danilo del Monte



"o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima."

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PROFECIA

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a  ti.
Drummond

Antes de findar a terceira década de sua vida
Danilo del Monte se dobra à exaustão.
Aniquilado pela fadiga em demasia,
Sai do mundo com a mesma decepção com que entrou,
De olhos abertos e incrédulos,
Olhando pra frente sem ver futuro para o seu próprio tempo.
Segue o caminho que tantos perdidos e desavisados seguiram,
E faz de sua única utilidade agora ser um pêndulo de relógio,
Que não pensa, que não sente, que não chora nem ri,
Que apenas bate, de um lado para outro bate, impulsionando a si mesmo, bate;
E como chorasse para vir à vida,
Dela sai com o silêncio e a tranqüilidade do anoitecer.

Antes de findar a terceira década,
Quando o peso que lhe ocupa as cavidades ósseas na face se tornou insuportável
E toda a existência não mais que uma obrigação,
Danilo del Monte joga-se ao chão dos incapacitados,
Do que nasceram para viver do lado de fora,
Dos que esperaram sentados à mesa da razão
Um prato quente e suculento
Que haveria de nutrir os nossos corpos necessitados,
As nossas idéias confusas, os nossos sonhos pisoteados,
E dar asas à nossa esperança estúpida e mal examinada;
Dos que receberam, pasmos de desilusão,
Um monte borbulhante e fedorento de lixo,
Podre, repugnante, asqueroso, mas real e palpável,
Que foi posto sobre toalhas de linho nobre,
Na bandeja de prata do garçom que exclama:
“É tudo o que temos aqui”.

Sucumbe à melancolia e ao desespero como dívida,
Como forma de pagar a Mefistófeles ­– ou quase isso –
Uma quantia justa e real pelo serviço inútil que recebera. Que pague.
Grande perda... Grande... Ou não. Não, provavelmente não.
Cansado, abatido, fatigado, sedento, incapaz
De brigar com todo o gênero humano, como quisera,
De dominar a si mesmo, e ensurdecido pelo próprio bater de coração,
Danilo del Monte se vai depois de ter atacado a mesquinhez alheia,
A estupidez mundial, a hipocrisia dos povos, mas não a sua própria.
Tudo menos os próprios demônios,
Que se acumularam nas sombras, por detrás dos pilares,
Que viviam reprimidos, contidos, chorosos, abatidos, mansos,
Mas que ganharam vida às custas da vida.



Danilo del Monte



domingo, 18 de dezembro de 2011

SOBRE O QUE NÃO APRENDEMOS


O que se há de fazer? Não aprendemos.
Ela ensina, Ela explica, Ela conta,
A gente até faz de conta que entende,
Mas decoramos e não aprendemos.
Sem saber nascemos, assim vamos morrer,
Assim nós vamos caminhar
Sem que a História possa historiar
Nosso desvio das armadilhas milenares.

Nós não sabemos. De verdade não sabemos.
Talvez possamos até fingir, talvez estudar,
Mas nunca conseguiremos aprender,
De cada amor não aprendemos nem a trapaça,
De cada guerra, nem a covardia,
E depois de tanta dor não aprendemos a gritar.
Cada mentira, cada olhar, cada palavra,
De tudo isso, nem mesmo a vaidade,
Nem mesmo as falsas impressões,
Nem mesmo a pobreza.

Tantas aulas, tantas lições. Ensinamentos Dela,
E acabamos por sair da vida da maneira como entramos.

Danilo del Monte

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

VIDA DE ESPERA


Caminhou até a obra esperando sorte.
Esperava o sol e também esperava vento.
Espera todo dia o tormento e a alegria
De suar, de brigar, de morrer e levantar.

Batia no chaveiro esperando samba,
Se ria e bocejava esperando melodia
E assobiava, fazendo do assobio a letra.

Martelou o chão esperando um terremoto.
Destruía o asfalto a ferro, a força, a osso,
Ouvia a sinfonia de ruído drástico e grosso
E olhava no relógio esperando o almoço.

Morreu cem vezes sob o sol ardente.
Quando olhou o céu só esperava nuvem.
Olhou mais uma vez e esperou piedade.
Derramava com sinceridade as lágrimas
Raras e sujas que caíam no asfalto aberto,
E estendeu o braço esperando água.

Esperou o fim da tarde que há de vir, por certo.
Banhou-se em água quente em chuveiro elétrico
E saiu cantando esperando o bar.

Chegou em casa alegre e esperou comida.
Viu a mulher deitada e esperou um beijo.
Ao ver a criançada esperou um abraço.
Rezou às velas para que o pai lhe faça forte.

Caiu na cama exausto esperando sorte.

Danilo del Monte

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

MAL TRAÇADOS E ÀS PRESSAS


Nunca pensei que saudade
Em um mundo como o nosso pudesse existir.
Tudo passa com tamanha ansiedade
Que julguei a nostalgia delírio de escritor.
Nunca pensei que pudesse haver falta
Quando tanta coisa sobra na cidade.
Sobra pressa, sobra estresse, sobre hiperatividade.
Nunca pensei que isso pudesse causar dor
Ou privar uma pessoa de sorrir.
Pura saudade, livre de qualquer outro fator.

Nunca pensei que me pudesse fazer explodir,
E nem que eu seria capaz de maltratar.
Jamais imaginei que pudesse haver
Coisas que não são de escrever, mas de sentir,
Ou coisas de sentir impossíveis de escrever.
Hoje o impossível anda a me perseguir
E eu nunca pensei que pudesse me vencer ou sufocar.
              
Pior do que uma faca atravessando o peito
É a lembrança da faca quando sai.
Nunca pensei, mas a lâmina faz parte de mim.
E quem de nós todos teria o direito
De querer dissimular o peito aberto?
Saudade que eu nunca pensei existir,
Mas que existindo foi capaz de me estourar,
Possuindo-me foi capaz de me fazer ferir.

Danilo del Monte

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A VIDA E O TEMPO

Viviane Mosé
(do livro Pensamentos do Chão)



quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando 
sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou
 meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda. 
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo 
é o tempo 
na verdade faz tempo mas eu escondia 
porque ele me pegava à força e por trás

 
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo 
se você tem que me comer 
que seja com o meu consentimento 
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo 
de lá pra cá ele tem sido bom comigo 
dizem que ando até remoçando

...

Página da poetisa: http://www.vivianemose.com.br/#



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A FÁBRICA DE IDEIAS


 texto de Friedrich Nietzsche
(do livro A GENEALOGIA DA MORAL)

— Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?… Muito bem! Aqui se abre a vista a essa negra oficina. Espere ainda um instante, senhor Curioso e Temerário: seu olho deve primeiro se acostumar a essa luz falsa e cambiante… Certo! Basta! Fale agora! Que sucede ali embaixo? Diga o que vê, homem da curiosidade perigosa — agora sou eu quem escuta. —
— “Eu nada vejo, mas por isso ouço muito bem. É um cochichar e sussurrar cauteloso, sonso, manso, vindo de todos os cantos e quinas. Parece-me que mentem; uma suavidade visguenta escorre de cada som. A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida — é como você disse” —
— Prossiga!
— “e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor esta submissão — chamam-no Deus). O que há de inofensivo, fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão (‘pois eles não sabem o que fazem — somente nós sabemos o que eles fazem!’). Falam também do ‘amor aos inimigos’ — e suam ao falar disso.”
— Prossiga!
— “São miseráveis, não há dúvida, esses falsificadores e cochichadores dos cantos, embora se mantenham aquecidos agachando-se apertados — mas eles me dizem que sua miséria é uma eleição e distinção por parte de Deus, que batemos nos cães que mais amamos; talvez essa miséria seja uma preparação, uma prova, um treino, talvez ainda mais — algo que um dia será recompensado e pago com juros enormes, em ouro, não! Em felicidade. A isto chamam de ‘bem-aventurança’, ‘beatitude’.”
— Prossiga!
— “Agora me dão a entender que não apenas são melhores que os poderosos, os senhores da terra cujo escarro têm de lamber (não por temor, de modo algum por temor! E sim porque Deus ordena que seja honrada a autoridade) — que não apenas são melhores, mas também ‘estão melhores’, ou de qualquer modo estarão um dia. Mas basta, basta! Não aguento mais. O ar ruim! O ar ruim! Esta oficina onde se fabricam ideais — minha impressão é de que está fedendo de tanta mentira!”
— Não! Um momento! Você ainda não falou no golpe de mestre desses nigromantes, que produzem leite, brancura e inocência de todo negror — não percebeu a consumada perfeição do seu refinamento, a sua mais ousada, sutil, engenhosa e mendaz estratégia de artista? Preste atenção! Esses animais cheios de ódio e vingança — que fazem justamente do ódio e da vingança? Você ouviu essas palavras? Você suspeitaria, ouvindo apenas as suas palavras, que se encontra entre homens do ressentimento?…
— “Compreendo; vou abrir mais uma vez os ouvidos (ah! E fechar o nariz). Somente agora escuto o que eles tanto diziam: ‘Nós, bons — nós somos os justos’ — o que eles pretendem não chamam acerto de contas, mas ‘triunfo da justiça’; o que eles odeiam não é o seu inimigo, não! Eles odeiam a ‘injustiça’, a ‘falta de Deus’; o que eles creem e esperam não é a esperança de vingança, a doce embriaguez da vingança (— ‘mais doce que mel’, já dizia Homero), mas a vitória de Deus, do deus justo sobre os ateus; o que lhes resta para amar na terra não são os meus irmãos no ódio, mas seus ‘irmãos no amor’, como dizem, todos os bons e justos da terra.
— E como chamam aquilo que lhes serve de consolo por todo o sofrimento da vida? — sua fantasmagoria da bem-aventurança futura antecipada?
— “Quê? Estou ouvindo bem? A isto chamam de ‘Juízo Final’, o advento do seu reino, do ‘Reino de Deus’ — mas por enquantovivem ‘na fé’, ‘no amor, ‘na esperança’.”
— Basta! Basta!

...

domingo, 13 de novembro de 2011

ME SINTO ALHEIO A MIM




Me sinto alheio a mim.
No fundo não sou eu que sinto, porque nem sei se sinto ou o que sinto.
Sou um eu em busca de mim,
Em buscas incessantes dentro do que sou,
Mas não sei o que sou, ou mesmo o que busco.

Talvez eu seja um punhado de sensações distintas que às vezes não sente.
Talvez um punhado de súplicas silenciosas, que gritam pra dentro.

Sou uma interrogação sem porquê, um vazio cheio de ser vazio. 
E dentro, infindáveis desejos de vir à tona, e mesmo aqui, estou alheio.

Ana Beatriz

terça-feira, 8 de novembro de 2011

MEUS FILHOS


Meu desgosto ao criar um texto
É comparado ao de uma mãe que pare um filho morto.
Vejo um cadáver nascer de dentro de mim,
Tão horrível, tão desfigurado, tão medonho
Que sinto aumentar minha afeição por ele.

Outrora tive um sonho
(E sonhos são tão frágeis e se esgarçam tão rápido)
Assim que percebi que mesmo mortas minhas crias eram belas;
Sonhei vê-las crescer,
Ganhar a vida que eu lhes neguei.
Foi só um sonho, bobo como todo sonho,
Mas por um instante jurei ser exeqüível.
Sinto tudo e tudo sinto muito mais por mim.

Queria tanto ver meus filhos perderem-se na vida,
Vê-los fazer as próprias amizades de má influência,
Chorar trancados no quarto ou no banheiro
E um dia depois dissimular o choro com um riso falso.
Queria vê-los padecer de angústia,
Queria vê-los, também, angustiar aos outros,
Quem sabe aos outros também fazer sorrir.
E por fim, vê-los definhar ao tempo de forma natural...
Mas não, eles já saem mortos de dentro de mim,
Me resta o trabalho de fazer o funeral.

Danilo del Monte

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ROSAS QUE ENGANAM




Um dia ele inclinou-se sobre as rosas
Que decoravam a sala de estar;
Apaixonado, deixou os ideais

E tragou a essência caprichosa.
“Perfume como o que sinto exalar
Nem os mais belos campos tropicais,

Nem as flores do céu são mais cheirosas.”

As rosas eram artificiais.


Danilo del Monte

terça-feira, 1 de novembro de 2011

MEIO INIMIGO



Não se engane,
Por detrás de todo conhecimento há um Mefistófeles.
Cada vez mais forte,
Cada vez mais debochado,
Todo vulto do saber é sombreado
Pelo vulto dos dentes que sorrindo dilaceram a carne.

Não se engane,
Atrás de qualquer luz da percepção
Vive um sorriso enferrujado
E uma risada que marcou história
Sem nunca sequer ter sido ouvida.

Cuidado para não se enganar.
Assim já sabiam os homens que sabiam demais,
E ouviram e beberam da risada,
E apaixonaram-se e cativaram-se com o sorriso,
E aprenderam demais
E morreram sem sorrisos e nem risadas.

Assim aprenderam os homens que sabiam demais,
E por detrás da farsa que é o sorriso humano,
Deixaram caducar a tolerância.



Danilo del Monte

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CHEGUEI


Cheguei. Vim.
Passei por cima de ideias e razões e vim,
Já desconheço a cor dos argumentos.
Cheguei por caminhos turvos, curvos
Como são os caminhos da percepção.

Cheguei onde antes já havia chegado,
Mas por inteiro ignorado
Como agora ignoro ideias e razões.
Cheguei e me sinto perdido onde cheguei,
Fiz também com que perdessem, outros,
Suas ideias e completamente a razão.

Eu vim.
Cheguei ébrio e tropeçando,
Cheguei torto pelo caminho tortuoso,
Cheguei tão metafórico quanto posso ser.
Vim e agora quero abrir o restante do caminho,
Até aqui cheguei por concessão e teimosia,
Já recuei por medo e agora anseio ver o fim.

Eu vim,
Mas o fim parece que já está atrás de mim.

Danilo del Monte

domingo, 23 de outubro de 2011

O ERRANTE


Tenho mecanismos de defesa
Que a própria defesa pode ignorar.
Às vezes erro a mesa,
Viro a de casa, sirvo a do bar,
Já paguei despesa de mendigo
E fugi deixando a minha sem pagar.

Já dei minhas emoções como mortas,
Já cheguei a enterrar o que não faleceu.
Já valorizei o mínimo e não vi o apogeu,
Mas ainda escrevo tudo em linhas tortas
Muito mais certas que as de Deus.

Meus métodos de ataque erram o alvo
E batem forte no que é meu.
Tenho escudo e não estou a salvo,
Já tive imunidade, hoje se escondeu.
Meus exércitos me abandonaram
Achando que eu já não era eu.

Eu já quebrei a mesa
E depois, triste, corri a consertar.
Um dia eu fugi com pressa,
Hoje, arrependido, volto devagar.
Ontem me perdi na estrada,
Hoje só quero me encontrar.

Danilo del Monte

terça-feira, 18 de outubro de 2011

DESCONFIAMOS



Desconfie daquele que não bebe,
Daquele que com a dor se acostuma,
Do ser que de valores se perfuma
E vive sempre muito aquém da sebe.

Desconfie daquele que não fuma,
Da própria idéia se desapercebe.
Desconfie do tal que preconcebe
Um vulto ébrio e belo da escuma.

Desconfie daquele que não sofre,
De quem nunca pensou em se matar.
Em seu íntimo a vida fede a enxofre,

Belos dentes só querem lhe rasgar.
A lucidez tem a chave de um cofre,
Não deixe que ela venha te roubar.

Danilo del Monte

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

À QUEM QUER QUE SEJA



Seja você quem quer que seja,
Hoje estamos próximos um do outro. Próximos
Como talvez nunca esteve um pai de seu filho.
Estamos próximos sejas tu quem quer que seja.
Seja bandido, padre, um fratricida, estuprador, seja...
Sejas tu irmão dos ratos que adentram os esgotos,
Sejas tu o que bebe o sangue podre das carnificinas,
Hoje estamos próximos.

Quis o acaso que nos tornássemos praticamente um.
Tu, lendo o que eu não pude ler,
E eu, sentindo em teu lugar o efeito das palavras que não li,
Das palavras que para ti são vazias, são monótonas,
Um simples sujar de primeira página que corrompe a obra.

Tu, que indevidamente ganhara
Um presente destinado a mim,
Que olhe para o livro como quem olha para um deus,
Sem por isso crer deveras em sua existência,
E depois corra a mirar o espelho
E note que no fundo dos teus olhos, talvez verá os meus.

Talvez não saibas, caro amigo,
Que o machado com que assassinas uma velha senhora me pertence,
E que dela, o sangue que jorrou procurava o meu rosto.
Talvez não saibas que a brutal arma que deveria repousar em minha cama,
Sonhar junto de mim, chora triste em sua estante,
E a cada dia perde um pouco da vontade de voltar pra casa.

Não se aflija. Quem, afinal, poderia saber
Que tamanho tesouro cairia em tuas mãos?
Não se aflija, há quem no mundo carregue culpa maior que ti,
Sem por isso deixar de usar outro machado.
Não se aflija, seja você quem quer que seja.
Estenda-me a mão e a outra à que segurou a pena
Como ninguém mais capaz faria igual.
E de braços dados vamos tentar caminhar,
Que quem foi privado das palavras e do sangue
Se completa da companhia de quem indevidamente os recebeu,
E na de quem frases e machado esparramou ao vento.


Danilo del Monte

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

BALZAC SOBRE A NULIDADE DO HOMEM

          *Trecho de
A MULHER DE TRINTA ANOS




          Não se encontram muitos homens cuja profunda nulidade é um segredo para a maior parte das pessoas que os conhecem? Uma posição elevada, um nascimento ilustre, atribuições importantes, certo verniz de polidez, grande reserva no procedimento ou prestígio da fortuna são para eles como guardas que impedem os críticos de penetrar a sua existência íntima. Essa gente se parece com os reis, cuja verdadeira estatura, caráter e costumes nunca podem ser bem conhecidos nem justamente apreciados, porque são vistos de muito longe ou de muito perto. Essas personagens de mérito factício interrogam em vez de falar, possuem a arte de dispor os outros em cena para evitar posar diante deles; depois, com grande habilidade, movimentam cada um pelo fio das suas paixões ou dos seus interesses e zombam assim de homens que lhes são realmente superiores, fazem deles fantoches e julgam-nos pequenos por que os rebaixaram até as suas pessoas. Obtêm então o triunfo natural de um pensamento mesquinho, porém fixo, sobre a mobilidade dos grandes pensamentos. De sorte que, para apreciar esses cérebros ocos e pesar-lhes os valores negativos, o observador deve possuir um espírito mais sutil que superior, mais paciência que alcance de vista, mais finura e tato que elevação e grandeza nas idéias. Não obstante, por maior habilidade que empreguem esses usurpadores em defender seus pontos fracos, é-lhes bem difícil enganar as esposas, as mães, os filhos ou o amigo da casa. Esses, porém, quase sempre lhes guardam o segredo sobre um assunto que de algum modo toca à honra comum, e muitas vezes até os ajudam a impor-se à sociedade. 


          Se, graças a essas conspirações domésticas, muitos tolos passam por homens superiores, compensam o número de homens superiores que passam por tolos, de sorte que o estado social tem sempre a mesma massa de capacidades aparentes. Pensem agora no papel que deve representar uma mulher de espírito e de sentimento na presença de um marido desse gênero; não se conseguem perceber existências cheias de dores e dedicação cujos corações ternos e delicados coisa alguma neste mundo poderia recompensar. Encontrando-se uma mulher forte nessa horrível situação, sairá dela por meio de um crime, como fez Catarina II, não obstante denominada A Grande. Mas, como nem todas as mulheres se encontram sentadas num trono, sofrem quase todas as desgraças domésticas, que, por serem obscuras, não são menos terríveis. Aquelas que procuram neste mundo consolações imediatas aos seus males conseguem, apenas substituí-los por outros, quando querem conservar-se fiéis aos seus deveres, ou cometem faltas, se violam as leis em proveito dos seus prazeres. Estas reflexões são inteiramente aplicáveis à história secreta de Júlia. 


Honoré de Balzac


** Download: http://www.4shared.com/get/j78njyXb/Honor_de_Balzac_-_A_Mulher_de_.html

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

FASCINAÇÕES, NAPOLEÃO E DEVANEIOS PARTICULARES



*Texto de TIAGO SILVA
colunista do site Gosto de Ler

Altivez, coragem, estrategismo, frieza, inteligência. São adjetivos de dar inveja a qualquer ser que um dia pretenda ser um conquistador. Agora, se existiu um homem na História em que essas qualidades melhor o distinguem, esse regozijado homem é Napoleão Bonaparte.


Retrato de Napoleão Bonaparte em Campanha


Imperador da França entre o período 1804 - 1814 (cinco anos antes, fazia parte do Consulado, período em que preparou o terreno para seu mandato), esse monarca iluminista, reconhecido por ascender após a luta contra o Absolutismo na Revolução Francesa, trouxe à sua nação o chefe que ela necessitava; uma espada que conciliasse a ordem e a paz, juntamente com um método governamental que beneficiasse aquele povo que já fora muito prejudicado com os altos impostos cobrados pelos Luíses que por lá mandaram.
Essa célebre personalidade, que não cessava em sua mania de domínio em conquistar a Europa inteira, já influenciou grandes personagens literários que compõem nossa prateleira bibliotecária. Se for contar nos dedos, do ano da morte de Napoleão – que foi derrotado por impor à Inglaterra que não se opusesse aos seus planos de expandir o território francês – em 1821 até os dias de hoje, são pouco menos que dois séculos. Mas, como progenitor de fascinantes personalidades que compõem a literatura mundial, seu legado altamente influxo pode ter a liberdade em dar um breque no final do século XIX. Justamente nesse ínterim, o francês Marie-Henri Beyle, de pseudônimo Stendhal e Fiódor Dostoievski, em diferentes datas, escreviam suas obras-primas O Vermelho e o Negro e Crime e Castigo, respectivamente.´

Stendhal
Julien Sorel, personagem central do romance de Stendhal, é um rapaz solitário, que teve uma infância marcada graças ao pai que sempre o destratou. Por ter decorado todos os trechos da Bíblia em latim, pretendia formar-se em teologia. Até que a oportunidade de trabalhar como criado na casa do prefeito de Verrières o fez conhecer a volúpia da paixão da Senhora de Rênal, a primeira-dama da cidade.

No decorrer do romance, migra da pequena cidade rumo à Paris, onde percebe que toda a veneração ingênua dos habitantes de cidadezinhas aos pólos industriais nada mais são que mera ilusão. Ingressa no curso de teologia em um local escondido da cidade, ministrado por um ganancioso abade. É lá que Sorel tem conhecimento das falcatruas que rondam os bispados e eclesiásticos, que nada mais querem senão aliarem-se a sociedade nobre para conseguirem, muitas vezes por meios inescrupulosos, aquilo que desejam.
Vale ressaltar que os grandes alvos de crítica de Stendhal foram a Igreja e a nobreza, que repudiavam e denominavam como pilhéria o povo de “classe baixa”, muito bem representado por Julien, que tinha grande sonho de se tornar um burguês e fazer uso de sua futura austeridade para castigar aqueles que o fizeram sofrer pérfidamente.
Tudo bem, o livro tem uma estória atrativa, mas, qual a relação de um mero cidadão negligenciado pela sociedade com Napoleão, o Imperador? Julien Sorel tem Napoleão como um mestre. É nele em que o personagem pensa quando consegue conquistar um grande êxito em sua vida, como roubar o coração da Senhora de Rênal e apimentar a paixão da Senhorita de La Mole, filha do marquês, que o admira bastante por ocupar um cargo de confiança em seu palacete e por obedecer fielmente as tarefas que lhe são ordenadas.
Por ter tido uma infância difícil e nunca ter tido a compreensão do pai, Julien detestava a população que o cercava e só tinha amizade com um vendedor e um velho pároco em sua cidade. Seu único desejo, que trouxe para si a infelicidade, era ter um título de nobre e um dia tomar benefício da autoridade que o dinheiro poderia lhe dar. (Era acanhado e retraído, já que não teve contato com muitas pessoas em sua vida). Porém, admirava personalidades grandiosas e ‘superiores’ – achava incapaz de um dia ter essas qualidades que tanto venerava.

Só foi se dar conta que a ambição tomou conta de si na mesma ocasião em que seu ídolo fora exilado pelos ingleses para a ilha de Santa Cecília. Julien Sorel, em momentos finais de sua vida, percebeu o declínio que a ganância trouxe para si, tirando definitivamente de seu caminho seus longínquos desejos. O suplício permitiu que sua mente vagasse nos mais diversos e absurdos pensamentos. Em um de seus devaneios, sentiu desonrado por não se assemelhar à forte personalidade de Napoleão.

Explicitando os movimentos que faziam parte de seu tempo, tendo conhecimento do predomínio futuro dos liberais na política francesa e citando Voltaire como uma mente que iluminou o pensamento de sua nação, Stendhal só teve sua complexa obra reconhecida, na época, por genialidades como Balzac e Baudelaire.

Como um par antitético dessa prosa francesa, Rôdion Romanovitch Raskólnikov, o criminoso utópico de Crime e Castigo, enxerga-se grandioso demais por viver em um ínfimo mundo onde predomina a moralidade e a hegemônica filosofia do liberalismo russo.
Dostoievski
Raskólnikov teoriza um universo proselitista. Acredita que os homens só atingirão a supremacia no momento em que se auto-enxergarem e perceberem que a inteligência e fria personalidade ditam sua superioridade. Através de um artigo, defende a existência de seres ‘extraordinários’, que têm a autoridade de mandar, manipular, assassinar e torturar os inferiores seres ‘ordinários’, que devem se submeter às exigências por terem a infelicidade de dominar o que pensam e não possuírem a inteligência e astúcia, características fundamentais na teoria de Raskólnikov para que se atinja o mais alto nível hierárquico nessa escala.

E quem poderia ser o espelho de toda essa conclusão? Mister Napoleão, o célebre personagem que derrubou a monarquia absolutista e instaurou a república, aniquilou o último dos Luíses, passou por cima de todos os contrários ao seu modelo político e conquistou uma legião de fascinados que ultrapassam o limite da moralidade e observam a violência como método decisivo e inevitável para que determinados desejos e excentricidades se sobreponham sobre um modelo vigente.

O ‘herói’ do romance de Dostoievski, alienado por essa instância de superioridade, se viu obrigado a provar sua teoria e mostrar a si mesmo que era ‘extraordinário’. Para tanto, planejou assassinar uma velha ranzinza e, inesperadamente, também teve que apunhalar sua vassala irmã, que assistiu a morte de sua única parenta.

Só que, o que não constava nos seus planos, era o infinito martírio que viria a dominar sua mentalidade nos dias a seguir. Sua consciência vagava nos mais inconscientes sofrimentos, alimentados pela esperteza de um delegado, as pressões de sua mãe e a preocupação com Porfíri Pietróvitch, um nobre cavaleiro que desejava desposar sua irmã para colocar em prática sua superioridade perante os economicamente menos abastados.
Tendo os fatos nadando em corrente contrária a sua situação, Raskólnikov tem a estreita sorte de conhecer uma tímida prostituta, que trabalha para sustentar seu sobrinho, e, ingenuamente, confessa seu crime.

Os psicóticos pensamentos de Raskólnikov jamais deixaram de lado Napoleão Bonaparte, condutor e alimento para todo esse sofrimento mental do personagem. O que é visível perceber, é que o maior apego ao Napoleão não foi por seu reinado na França no início do século XVIII. Foi a sua atitude em levantar a espada, sua coragem em ultrapassar limites, sua ousadia em elevar acima de tudo seus desejos que influenciaram personagens complexos tão reverenciados na literatura universal. Raskólnikov e Julien Sorel, até hoje, são considerados duas das maiores personalidades no universo literário, mesmo após mais de um século de existência. Napoleão, não se pode negar, foi e ainda é um ídolo. Agora, se o seu legado trouxe conseqüências benéficas ou não a uma futura geração não inserida nas fascinantes páginas dos livros, isso já é outra história.






domingo, 11 de setembro de 2011

A PERSONAGEM



É uma via de mão dupla. Uma vida, melhor dizendo, dividida em duas. Não, ainda não; a personagem que fala pode ser a suma de todas as outras que não falam. Sim, porque nem por não ganharem vida nos papéis pode-se dizer que o mundo não está cheio de personagens por aí afora, repletas de dores e delícias, chorando nos cantos, prendendo a respiração ofegante ou rindo de um riso leve e despretensioso. Há personagens escondidas em todas as almas, sem fazer distinção.

                Tudo que falo pode parecer demasiado misterioso, mas que ínfima coisa nesta vida não o é? Se no interior de um jovem poeta pode haver labirintos escuros onde a própria imaginação se atrapalha ao entrar e as paredes a olham dissimuladas e desdenhosas, por que haveria comigo de ser diferente? Eu não faço senão completar a arte, e como a arte nunca se finda, nunca se completa, talvez eu seja nessa vida desnecessária, talvez o que antes se julgara o extravaso da criatividade não passe de uma vaidade típica de um tempo mesquinho e pobre em todos os sentidos. Mas, motivos à parte, cheguei a vida pela necessidade que a vida tinha de me criar, e a isto atribuo o meu andar descompassado e os meus tropeços nas calçadas onde se colocam lixo, mas nem por isso deixo de caminhar, às vezes porque é necessário caminhar, outras apenas para ouvir o barulho do salto batendo no cimento. Cada passo barulhento que dou é a vida de uma personagem diferente que entra em mim, são como apelos por piedade de alguém que sente as pancadas do chicote nas costas, rasgando a carne como a faca rasga o queijo.

                São muitas vidas de mão dupla. Quando paro na contramão da vida para pensar, refletir sobre os meus caminhos, é ímpia a revelação que me diz que nada foi criado para fazer sentido, nem mesmo as casas onde se morar, ou os rios que deságuam no mar, ou as roupas que escondem o corpo. Nada, quando se olha para tudo, tudo perde o sentido, e não há moral, nem ética e nem verdade absoluta que quando encarada olhos nos olhos não possa ser defenestrada. Tudo isso se passa na cabeça variante de uma personagem que sabe que também se passa nas cabeças das outras cem milhões espalhadas por aí.

                Penso naqueles que se foram. Sei que aquele ainda pensa em mim, e que aquele outro já nem se lembra mais quem sou. Lembro do meu rosto umedecido nos momentos e na vergonha desconcertante no dia seguinte. Lembro dos sonhos que tive e que me abandonaram, um a um, a cada fase da minha vida, e penso, quando chegam os novos sonhos, que eles são apenas reciclagens dos antigos, novas faces (ou máscaras) mas exatamente os mesmos sonhos, e exatamente iguais aos outros cem milhões que passeiam pelas noites de quarto em quarto, reviram as bonecas, os vestidos e as maquiagens, se enfeitam, se perfumam antes de entrar no sono de quem se estica sobre o leito.

                Quantas vidas o dramaturgo fez o favor de cruzar? Se nas lacunas das frases de um jovem poeta há mais conteúdo do que todas as peças encenadas sobre o palco, por que não haveria de ter nas minhas palavras alguma percepção válida? Sim, porque as personagens do mundo podem igualar seu autor, como Werther se igualou a Goethe, ambos com capacidade de responder um pelo outro, tão bem que se torna difícil dizer quem é criatura e quem é criador.

Danilo del Monte

foto de Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ENTRE NÓS


Como se já não bastasse um...
Forte, cego, apertado na garganta.
Como se já não bastasse um
Que dói de dia e sufoca a noite.
Como se já não bastasse um...

Enlaçado mais um dentro do peito.
Forçado um a mais na consciência.
Como se já não bastasse um,
Uma legião vem-me atar pelos braços,
Que se soltos poderiam machucar;
E também pelas pernas,
Que livres sem dúvida fugiriam.

Acudam – tento gritar sabendo que a voz
Também já foi atada ou não faz parte de mim,
E se a cabeça esquematiza uma fuga,
O coração bate descompassado
Na ilusão de que irá se libertar.

Um... Apenas um bastaria,
Seria suficiente para me açoitar – ou não,
Mas não, como se já não bastasse um
Os mais resolveram também me flagelar,
Receosos da força da traqueia quando acuada.

Ataram-me.
Não um, não três, não cinco. Centenas.
Como se já não bastasse um...

Danilo del Monte


* imagem: Quadro de Isabel Lhano

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A AUSÊNCIA TEM SUAS CAUSAS

             
               Há certo tempo que os meus dedos não sabem o que é pegar um lápis e preencher alguns espaços de papel. Aqueles que um acidente natural permitiu que me conhecessem devem ter notado que muitas idéias que antes me saíam da cabeça e percorriam o meu corpo, hoje, assustadas, saem do coração em linha reta corpo afora, sem o percorrer, sem o ganhar, e vão diretamente dar com a estratosfera da Terra, diluindo-se no ar, espalhando-se e perdendo-se. Sem dúvida saltou aos raros e profundos olhos que me olham que o poeta parece ter morrido, e caminha pelas ruas da cidade como um cadáver caminharia a procura uma cova vazia e aconchegante para se deitar pelo restante dos séculos.

                O interior de meu tórax deve estar em camadas mais finas que o habitual. É como a água que vai espancando a pedra diariamente, sem trégua, sem piedade, e a pedra que ali envolta dessa água se mantém fincada ao solo, por ter fama de rocha dura a zelar, esconde a dor explicando que a água, que mole, o que pode fazer é lhe banhar. Jamais deixará a pedra de se perguntar como ela, pedra feita para machucar, pode deixar-se flagelar com tamanha violência pelas águas calmas e dissimuladas do oceano.
 
                As águas de que falei podem ser entendidas de mil maneiras diferentes, mas para pedra há somente uma referência lógica. Mas quê? Veja eu a esta altura falando em lógica... Há pouco que ela se divorciou de mim, jogando-me na cara toda a minha ingratidão. A lógica me abandonou, e a cores dos argumentos que eu conhecia desbotaram e já estão tão leves que não mais as posso distinguir, e sem esta diferenciação de cores, caros, a vida é um eterno errar e se redimir.

                Em que lugar do espaço morreu a minha inspiração? Ela não morreu, na verdade ela vem aos montes, mas de atropelo, e muitas vezes não tenho tempo, sequer, de as perceber. Noto somente vultos batucando a minha cabeça, são coisas parecidas com idéias, formadas por outras coisas que nem mesmo parecem palavras, nem sílabas nem letras, algo completamente abstrato. Vem e passam tão rápido que não consigo as pegar, antes me sentia um caçador de borboletas, já hoje sequer faço esforço para detê-las, apenas as vejo sair de mim e bater as asas rumo a qualquer lugar que seja distante o suficiente. São idéias que não podem me abraçar, são ... um instante, por favor... (Pois não? Como? Ah, sim, sim... perfeito. Obrigado, Bruxo do Cosme) são idéias sem braços. O que me faz lembrar que correr atrás delas é, na verdade, uma idéia sem pernas.

                E quanto a pedra e o mar que há pouco ilustraram esta confissão? A pedra não pode fazer senão apreciar o vasto mar, e por muito certo posso dizer que esta, tragada pelo movimento das águas, vendo-as balançar com o vento e sentindo-se despregar do forte solo, sente total necessidade de as descrever, sem para isso achar comparação digna desse enfeitiçar, e busca como metáfora exata e poética, na retórica dos aflitos, o olhar de Capitu.

Danilo del Monte

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A PRAÇA

No caminho de algum lugar para lugar algum, caminho que freqüentemente faço dentro e fora de mim, passei por uma praça que já muitas vezes antes tinha passado, ela sempre esteve em meu caminho embora poucas vezes eu tenha percebido. Andei em círculos, não me atrevia a entrar, fui caminhando pela periferia, olhando para dentro dela enquanto ela olhava para dentro de mim, e tudo o que eu até então supus dúvida pareceu ficar claro quando ao andar ao redor da praça eu não encontrei um banco de concreto onde pudesse me sentar.

Nitidamente a praça me olha de canto de olho, me aponta o dedo e solta um sorriso já velho conhecido meu. Sorriso de canto de boca, o elogio da dissimulação. As luzes nos postes, óbvio, brilham mais do que minhas pupilas, mas não mais do que minha mente, que tão inutilmente reluz, tão bela, tão assustadora e tão desprezada, às vezes por mim mesmo.

Em um extremo um homem pede um cigarro. No outro, próximo de uma banca de jornal, um grupo ri de alguma coisa que mesmo eu desconhecendo, posso jurar que não é engraçado. Em alguns pontos crianças dormem, crianças pedem e crianças choram. Uma praça na calada da noite é o melhor retrato que se pode ter do nosso mundo, é de noite e nas praças que ratos e homens se misturam, os primeiros dos dutos de esgoto para a superfície, os segundos da superfície diretamente para os dutos de esgoto, e convivem tão bem entre si que até mesmo o cheiro de podridão pode ser dividido, repartido, compartilhado.

Um dia o malandro reinou na praça, foi nos belos tempos do chapéu, carregava no bolso não mais que uma carteira sem dinheiro e uma navalha em caso de confronto direto com outro malandro. Todos os malandros já morreram ou se aposentaram, hoje reinam pessoas sem chapéu, sem ideias e sem graça, e a praça se desfaz de gente como eu. Ao contrário dessas pessoas, as árvores me olham parecendo ter alguma coisa a dizer, mas não se atrevem, e eu continuo caminhando.

Bate o sino da igreja. Os sinos das igrejas ainda dobram, tão carregados de culpa e de mágoas. Embora tão podre o sino quanto a igreja, quantos os ratos, quanto a praça toda, é algo que me remete a tempos distantes, tempos muito mais antigos do que os tempos dos chapéus, e eu saboreio cada badalada de sonoridade exatamente igual à anterior, cada pancada vibra algo inquietante dentro de mim e eu me atrevo a entrar na praça e me sentar no banco de concreto que há pouco me repudiara.

Sento-me, me acomodo e deixo as ideias me invadirem. Ideias que passam pelo filtro e ainda sim chegam ao meu cérebro totalmente poluídas e saem pelos dedos com dificuldade, esses tremem um pouco e perdem a firmeza na hora de segurar o lápis. Fico tão desconfortável como estivesse num país estrangeiro, como se o meu ato de adentrar a praça, agravado pelo ato de sentar em um banco, fosse o maior crime do mundo, e os ratos e os ratos parecem fazer círculos ao redor de mim. As ideias me acabam, assim como acaba o filtro e o motor propulsor, e os olhares dos ratos passam a me fuzilar com maior intensidade, e em covarde desistência sou forçado a abandonar o banco e caminhar para longe enquanto escuto a praça cochichar.

Danilo del Monte

segunda-feira, 18 de julho de 2011

OS VENENOS II (MATÁFORA MAIOR)



Todo veneno criado é criado justamente para matar,
Assim como para matar foi criado o sentimento,
E a metáfora maior sangrenta que habita o ser
Pulsa fortes doses de veneno que corroem o corpo.

Meus passos me consomem. Sinto-me definhar
A cada triste idéia que me invade a cabeça,
E não fossem os venenos que matam me salvar,
Talvez nem mesmo até aqui eu teria caminhado.

De ancestrais de toda a Terra surge o primeiro,
Como rota de fuga da realidade que não fazia senão maltratar.
O segundo é francês. Não, o segundo é suíço,
Embora tenha ficado a França com toda a glória,
O segundo não fazia fugir como o primeiro,
O segundo fazia inspirar, deixava o terceiro fluir.
Sim, o terceiro, o terceiro nasce dentro de mim
E por dentro de mim se espalha como praga.
É o terceiro que mata mais lentamente
.
Enquanto escrevo sinto esverdear-me.
Verdes também ficam as paredes do meu quarto,
Conversam comigo e eu transcrevo a conversa.
Um quadro de repente se põe a chorar.

Venenos que são feitos para amenizar.
Metáfora maior atingida em cheio por si própria,
Como podes ainda bater tão violenta
Se tragédia maior foi sempre causada por ti?

Danilo del Monte


sexta-feira, 15 de julho de 2011

POR QUE EM NOME DE DEUS?

Leonardo da Vinci - Homem Vitruviano
     Hoje, no meio de uma praça pública, uma senhora notou que eu não era o mais feliz dos homens e, em nome de deus, disse-me algumas palavras de esperança. Saí atordoado. Fiquei pensando, horas depois, no costume dessa gente de tentar converter tudo o que existe na Terra em uma oferenda aos céus. Será que não percebem que o amor que se dedica a deus é uma oferenda, assim como um cordeiro sacrificado no altar, e que este cordeiro seria mais útil se, em vez de oferecido a deus, fosse oferecido a alguém que tem fome de verdade?

        
“Não há no mundo amor e bondade bastantes para que ainda possamos dá-los a seres imaginários” – NIETZSCHE


         
        Acima de tudo, dizem, está deus. Mas por quê? Penso em como vamos celebrar, algum dia, justo triunfo de benevolência, de amor pela própria espécie, se toda ideia que talvez torne isto possível é sempre atribuída a deus. Deus nunca passou de uma palavra. E que tamanha covardia a nossa jogar toda a culpa e todo o mérito sobre essa palavra. Se há bondade, que seja dada ao homem mais próximo. Se há respeito, que seja entregue a quem está ao lado. Se há amor, que se dedique à humanidade. Deus não tem o que fazer com tudo isso.

          Após dois mil anos de vergonhosa história, de sangrenta submissão a uma palavra pedante, meios e fins injustificáveis justificaram-se reciprocamente. Tudo o que houve de podre, de fedorento, de nocivo na história humana teve por trás, ainda que discretamente, uma palavra desprovida de ideia. Hoje, depois de um passado vergonhoso, estes mesmos meios, estes mesmos fins, esta mesma pedante palavra instala-se em cada esquina para apelar à bondade que talvez exista dentro dos homens. Será que essa palavra ainda possui algum sentido?

          Disse Miller que em nome do milagre que está por vir tudo se suporta, dor, desgraça, fome, humilhação... Tudo na esperança do milagre que não tardará, do milagre que vai tirar de sobre o rosto a bota pesada e suja de dois milênios... Mas o milagre não vem e continuamos aguentando. Da forma como nos ensinam a pensar, o milagre jamais acontecerá. O milagre, e aqui digo eu, é justamente a percepção de que não há milagre nenhum por vir, é a percepção de que o amor entregue a deus foi um desperdício.

          Algo precisa ser feito, valores mudados, criados uns, destruídos outros, mas por que não em nome de nós mesmos? Por que não pedir uma dose de preocupação com a humanidade em nome da própria humanidade, que é quem deveras está necessitada? Por que não em nome de uma civilização um pouco menos hipócrita, um pouco menos estúpida, um pouco menos pedante, um pouco menos selvagem e um pouco mais segura de si?

          O nome de deus (ou a palavra) anda muito carregado de sujeira para que possamos usá-lo como nossa salvação. Se existe alguma chance de lutar contra a própria terrível natureza, façamos em nosso próprio nome. O bem para quem está ao lado, e não no além; o bem pelo prazer, e não pelo medo; o bem iniciado por nós e entregue a nós. Um cordeiro queimado no altar não é comido por ninguém


Ouça, abade. Toda a diferença é essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por medo às caldeiras de Pêro Botelho, nem com o engodo de ir para o reino do céu.” (Eça de Queiros – Os Maias)

Danilo del Monte

Quadro de Tarsila do Amaral