quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PROFECIA

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a  ti.
Drummond

Antes de findar a terceira década de sua vida
Danilo del Monte se dobra à exaustão.
Aniquilado pela fadiga em demasia,
Sai do mundo com a mesma decepção com que entrou,
De olhos abertos e incrédulos,
Olhando pra frente sem ver futuro para o seu próprio tempo.
Segue o caminho que tantos perdidos e desavisados seguiram,
E faz de sua única utilidade agora ser um pêndulo de relógio,
Que não pensa, que não sente, que não chora nem ri,
Que apenas bate, de um lado para outro bate, impulsionando a si mesmo, bate;
E como chorasse para vir à vida,
Dela sai com o silêncio e a tranqüilidade do anoitecer.

Antes de findar a terceira década,
Quando o peso que lhe ocupa as cavidades ósseas na face se tornou insuportável
E toda a existência não mais que uma obrigação,
Danilo del Monte joga-se ao chão dos incapacitados,
Do que nasceram para viver do lado de fora,
Dos que esperaram sentados à mesa da razão
Um prato quente e suculento
Que haveria de nutrir os nossos corpos necessitados,
As nossas idéias confusas, os nossos sonhos pisoteados,
E dar asas à nossa esperança estúpida e mal examinada;
Dos que receberam, pasmos de desilusão,
Um monte borbulhante e fedorento de lixo,
Podre, repugnante, asqueroso, mas real e palpável,
Que foi posto sobre toalhas de linho nobre,
Na bandeja de prata do garçom que exclama:
“É tudo o que temos aqui”.

Sucumbe à melancolia e ao desespero como dívida,
Como forma de pagar a Mefistófeles ­– ou quase isso –
Uma quantia justa e real pelo serviço inútil que recebera. Que pague.
Grande perda... Grande... Ou não. Não, provavelmente não.
Cansado, abatido, fatigado, sedento, incapaz
De brigar com todo o gênero humano, como quisera,
De dominar a si mesmo, e ensurdecido pelo próprio bater de coração,
Danilo del Monte se vai depois de ter atacado a mesquinhez alheia,
A estupidez mundial, a hipocrisia dos povos, mas não a sua própria.
Tudo menos os próprios demônios,
Que se acumularam nas sombras, por detrás dos pilares,
Que viviam reprimidos, contidos, chorosos, abatidos, mansos,
Mas que ganharam vida às custas da vida.



Danilo del Monte



Um comentário:

  1. Este texto me lembrou demais a cena do Filme "O Fabuloso destino de Amelie Poulain!"

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