sábado, 2 de novembro de 2013

COREANA RUIVA

Nasceu coreana e estranhamente ruiva.
Algumas décadas depois, passou por mim
Num dia melancólico de setembro,
Jogando os cabelos na minha cara
Para que eu notasse que era ruiva
Na totalidade do corpo escultural de coreana.

E agora eles comeram a coreana ruiva.

Acho que ficou para trás o tempo
Em que eu saía incólume e risonho
De qualquer derrota.
Vejo índias tocando castanhola,
Italianas sambando no terreiro,
Mulatas líricas de olhos azuis,
Mas só consigo pensar na coreana ruiva
Que eles acabaram de comer.

Sou menos humano do que já fui,
Sou menos fantástico do que gostaria
E muito mais realista do que o necessário.
Aprendi a andar com pressa pelo caos
E perdi por completo o grande talento
De enxergar beleza nas catástrofes.

Esses olhos que não veem mais flores
Brotando no meio do concreto
Agora veem, invejosos e desconsolados,
A outra margem do rio poluído,
Onde samba despreocupada a coreana ruiva
Que eles acabaram de comer.

Danilo del Monte



Nota:

Não existe imagem que combine com a porra deste texto.